Mostrar mensagens com a etiqueta cábulas descaradas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cábulas descaradas. Mostrar todas as mensagens

16.1.12

escritas

Se eu escrevesse assim...

«Oh, que saudades do meu pai, e de ser pequenina, e de viver num Portugal se calhar tão pobre como este, mas sem nenhuma consciência disso. Que saudades de ir pela mão dele à Baixa ver as iluminações de Natal – que nesse tempo só lá é que as havia. Que bom tirar a fotografia com o Pai Natal à porta do Hotel Avenida Palace, escolher depois um presente na loja de brinquedos do italiano da Rua do Ouro e, em frente a uma montra cheia de chapéus-de-chuva, lanchar na Pastelaria Ferrari, onde havia batidos de ananás divinos e muitos espelhos para olhar o mundo. Oh, que saudades de ser criança e subir o Chiado pela mão do meu pai, de passar a loja de tecidos donde a minha mãe trazia amostras de fazendas de xadrez para os kilts da minha irmã e pedia descontos; e que bom era – afinal, o melhor momento do passeio – quando o meu pai, muito vaidoso, ia provar um fato novo cortado pelo alfaiate do Picadilly e eu podia esperar, sem medo de pedófilos, na Livraria Bertrand, onde metia o nariz nos livros e andava de sala em sala a ver tudo, como numa espécie de museu… Hoje, o País continua triste, e pobre, mas temos pronto-a-vestir e refrigerantes de lata; já não resta quase nada do que compunha essa viagem bonita, nem me resta o meu pai. A única coisa que tenho, apesar de tudo, ainda é a Bertrand.»

daqui

12.12.10

Orgânico = Biológico

"Lembre-se: ovos crus, orgânicos, sempre. Aliás, ovos deveriam ser SEMPRE orgânicos, crus ou cozidos. Eu não quero nos meus ombros o peso do sofrimento das pobres galinhas confinadas e mal tratadas. Se você só puder comprar um item orgânico da sua lista de supermercado, que sejam ovos. Prioridade número 1. Assim você não pensa nem em salmonela, nem nos hormônios de crescimento e antibióticos e nem no sofrimento das galinhas. Aproveita o seus lindos ovos de gema cor-de-laranja e fica feliz com sua mousse, seu bolo, sua salada Ceaser."

in "La Cucinetta"

23.10.10

para onde vou

Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. É para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Clarice Lispector (inspiração daqui)

3.10.10

dixit (II) last but not least

"Tenho em mim um amor bonito, um amor que me espreita do alto dos prédios, do topo dos prédios para os quais ninguém mais olha, só eu, com os olhos cheios das estrelas do dia e da noite. Tenho um amor bonito que acende as luzes das janelas no escurecer da tarde, que esvoaça as cortinas numa saudação invisível a todos os demais. Tenho um amor bonito que me vela o sono, que encosta seus cílios na pele do meu rosto quando quer sentir meu cheiro, que caminha de braços dados comigo mesmo depois que já foi embora, que me põe nos lábios todos os dias as pegadas de sua boca. Tenho um amor bonito que não esmaece, não amarela as folhas, não enfraquece, porque sabe meu nome, porque sabe meu silêncio, porque sabe todas minhas palavras secretas. Tenho um amor bonito que tem os dedos entre os meus cabelos e a mão sempre ao redor da minha cintura, seus olhos marejam e só eu percebo e meu coração se infesta de uma comoção indizível e delicada a cada sorriso seu, a cada lágrima disfarçada, a cada tom da sua voz. Tenho um amor bonito que põe no céu sempre uma lua cheia e no ar um perfume de maresia e ondas, seus sapatos estão sempre sujos de areia e ele emudece de repente e eu sinto seu olhar dentro de mim, onde só existe mesmo eu e tudo mais que ninguém mais vê, ninguém mais sabe. Tenho um amor bonito que impede que eu desista, que eu me canse, que eu entristeça ou desespere, que eu envelheça, me amiúde ou morra. Tenho um amor bonito que me reinventa para mim mesma, que me mostra cada vez a minha face mais exata, o meu corpo mais inteiro, o meu passo mais firme e certo. Tenho um amor bonito que não acaba mais. "

dixit (I)

"(...)Ora, se não há dinheiro para comprar nada, como espera o Estado receber mais de um imposto aplicado a bens de consumo? Para terminar o dia de pesadelo, Almeida Santos declarou que «o povo tem que sofrer as crises como o governo as sofre». Há uma mentira e um disparate nesta frase. A mentira é o governo sofrer como sofre o povo. O disparate consiste em pedir aos pacientes que entendam o sofrimento dos médicos.(...)"

óbvio

dixit

2.9.10

my feelings exactly

"somos contra os hoteis na traseira do sol posto, contra os quartos com vista para o saguão e aspiradores a arranharem a porta às nove da manhã, somos contra os taxistas amigos dos porteiros e as gorjetas de mão estendida, somos contra os champôos oferecidos com cheiro a pastilha elástica, somos contra os mini-bares fechados à chave, contra as alcatifas decoradas pelas traças e queimaduras de beatas, somos contra as almofadas de esponja sintética com um chocolate de 0% cacau em cima, somos contra os comandos de televisão com plástico e sem pilhas e já que falamos do tema contra férias passadas em frente à televisão. somos contra os pequenos-almoços que acabam im-pre-te-ri-vel-men-te às dez da manhã, a não ser que tenham uma flor, café, doce e croissants de plástico, esses podem acabar agora mesmo. somos contra a falta de escolha, o sumo de laranja concentrado e "a cozinha já fechou". somos contra os pêlos de outras origens e outras espécies em lençóis e banheiras. somos contra portas que não fecham e janelas que não abrem. somos contra a desumanização dos números e não saber onde raio fica o quarto nr.425, para que lado e em que ala. nós somos, caros senhores burocratas, contra check-ins que exigem grupo sanguíneo, profissão da avó, currículum e carta de recomendação. somos contra o mau-humor e os seus devotos praticantes. somos contra canalizações surpresa ou seja a torneira da banheira abre a do lavatório e autoclismos responsáveis por pequenos dilúvios. somos contra centros de mesa com fruta que parece mesmo verdadeira. somos contra o fiambre da espessura de uma fatia de pão. somos contra o mais ou menos, contra a vida repetida e atabalhoada. somos furiosos defensores de algo completamente diferente."
adaptado do MANIFESTO DOS ATMOSPHERE HOTELS

16.6.10

(des)considerações


brit(com)

"[Uma imagem mental da Inglaterra]
A boa educação levada ao extremo dos Britânicos que, quando os pisamos sem querer, nos pedem desculpas ou a auto-estima envergonhada que os impede de se vangloriarem mesmo quando têm razões para isso."

I rest my case.

1.6.10

pois...

"Uma vez pediram-me para contar uma lição de vida, aprendida a trabalhar em livrarias. Respondi que talvez tenha sido a de verificar que existem pessoas que praticam a ignorância de livre e espontânea vontade. Sempre me intrigou o caso de duas pessoas com a mesma profissão, vindas de meios sociais semelhantes, ambas com acesso privilegiado a uma biblioteca, em que uma lê e a outra não. Quando penso nisso, lembro-me sempre da fábula do sapo que morre de fome impossibilitado de se alimentar, quando à sua volta tem um monte de moscas mortas, prontinhas a comer. No entanto, é verdade que um sapo tem o cérebro superdesenvolvido para caçar moscas em movimento, mas, infelizmente, é incapaz de ver aquilo que não mexe."

15.4.10

10.3.10

verdade, verdadinha, verdadeira

"Tal como os médicos, os maus professores são perigosíssimos."

daqui

5.3.10

sintetizar

"(...) a maternidade reduz-nos a vida ao essencial."

Meryl Streep

pois que venha o Óscar!

24.2.10

e é isto mesmo

(...)
"Acredite, pior que estar na frente de um piroso por fora, só ficar perto de um piroso mental. Pessoinhas que ligam muito à roupa e precisam vestir marcas para se sentir seguras. Pessoinhas que não respondem emails. Pessoinhas que têm vergonha da mãe, do pai e dos avós. Pessoinhas que nunca falam no passado, com medo de serem descobertas. Name Droppers. Pessoinhas que querem ser o que não são. Pessoinhas invejosas. Pessoinhas que não gostam de ouvir a sua história, ou que gostariam mais de ouvir a sua história se você se chamasse Pardadela de Abreu. Pessoinhas que não lêem, ou só lêem “coisas complicadotas como Walser”. Pessoinhas que gostaram da nouvelle cuisine e hoje são loucas por cozinha molecular, aquelas merdas em copinhos que nunca se sabe se é para comer à colher ou beber, mas não sabem o que é um arrozinho de tomate. Pessoinhas que moralizam muito. Pessoinhas muito politicamente correctas. Pessoinhas que andam na moda. E pessoinhas que acham que fazem tudo certo, raramente têm dúvidas e nunca se enganam. Pessoinhas que acham que vão apodrecer melhor que os outros: a cheirar a Chanel 5 ou a um perfume qualquer que compraram no Duty Free. Aliás o nome de todos os pirosos deveria ser Dutifri. "
(...)

lido no SushiLeblon

11.1.10

contradições (ou talvez não)

sou uma pessoa estranha. a minha única resolução de ano novo foi não tomar resoluções nenhumas. na realidade não me andam a apetecer tomar resoluções mas aceitar cada coisa que a vida proporciona. é uma opção como outra qualquer, mas tenho cosciência que todos os dias e a todo o momento estou a decidir coisas e tento (pelo menos as mais importantes) não o serem pecipitadamente.


entretanto como gosto de listas tenho andado a passar os olhos por algumas respeitantes ao ano que findou e há até quem já arrique a fazer as da década. não fiz ainda as minhas todas e não sei se as partiharei aqui porque até um blog pessoal tem os seus limites ;-) mas claro que a mais óbvia é a dos blogs que visito constante do meu google reader e que são bastante diversos na sua temática. da minha lista pessoal se deduz que:



adoro cozinhar mas não quero ter um food blog como por exemplo este (lindíssimo!) ou este que também acho inspirador



tenho preocupações e práticas que tentam diminuír a pegada ecológica cá de casa mas não terei nunca um eco blog como este



vivo no meio de livros mas chega-me terei um book blog embora me actualize aqui e aqui e ainda aqui



adoro cinema mas não faço me atrevo a fazer posts de filmes como fazia a caríssima wasted blues (que pena...)



gosto muito do estilo campestre na decoração e tenho uma casa no campo mas não inspiração suficiente para um blog destes ou destes



sou fã de pintura (sobretudo do sec.XIX como já se percebeu) mas não chego a ter um blog sobre pintura. por acaso não há assim um que me preecha aqui o vazio...

e sendo uma pessoa opinativa (já fui mais, confesso) mas não tenho a escrita daqui nem daqui


depois ha uns quantos blogs que sigo mas é difícil explicar porquê: uns porque me dizem algo ou quem os escreve talvez, outros porque me interessam do ponto de vista da curiosidade mas não acrescentam nada realmente importante à minha existência. e há ainda uns quantos que consulto por desfastio mas dos quais nunca retirei mais do que um sorriso ou outro de tanta "imaginação" que retratam para não lhe chamar outro nome. no fundo aprecio outras formas de pensar e como acredito em quase tudo até prova em contrário tento viver a apologia da diferença e ainda para mais este ano é o ano da Biodiversidade...get it?

17.12.09

praga de épocas festivas

atenção à melhor definição de calorias de sempre:

calorias são bicharocos que se escondem nos armários e apertam a nossa roupa durante a noite.

(no Natal são uma praga)

1.8.08

pois é para que saibam

"(...) Algo funciona mal, e para mim é, principalmente, que hoje em dia as pessoas não param nunca ou realmente não o sabem fazer, nem sequer aos fins de semana, cada vez mais ocupados por actividades lúdicas que mais parecem obrigações: há que divertir-se a todo o custo, e tem de ser em qualquer lado, na rua, como se se tivessem esquecido que também nos podemos divertir muitíssimo em casa, lendo, vendo filmes, de qualquer forma sem que tenhamos de ficar esgotados com o divertimento. E dos que são pais, nem se fala: depois de se esgotarem durante cinco dias, voltam a esgotar-se nos dois restantes tentando distraír as suas crianças, procurando que não se entediem nem um minuto, porque isso, o suposto tédio (verdadeiramente o que mais agudiza a imaginação) converteu-se num dos pecados mais imperdoáveis da nossa sociedade. Logo, os pobres progenitores correm de aqui para ali, escravizados pelos seus filhos: sim, um parque de diversões, uma excursão, um desfile, um espectáculo de magia, um aniversário sempre multitudinário, o que descobrirem ou o que lhes exijam os pequenos tiranos mal acostumados.(...)"
Javier Marías
(in El País, numa tradução mais ou menos livre...)